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sexta-feira, 6, março, 2026

Grupo russo fecha operações no Brasil e deixa produtores de Sinop, Querência e Porto dos Gaúchos sem respostas

O encerramento repentino das operações da Aliança Agrícola do Cerrado, braço brasileiro do conglomerado russo Sodrugestvo, provocou incerteza e preocupação entre produtores rurais de Mato Grosso. Sem aviso prévio, a empresa fechou todas as suas unidades no país, afetando diretamente estruturas estratégicas localizadas em Sinop, Querência e Porto dos Gaúchos.

A decisão foi comunicada internamente em 14 de janeiro de 2026 e partiu da matriz internacional do grupo, sediada fora do Brasil. Em Mato Grosso, foram desativados o armazém de Porto dos Gaúchos, a unidade de atacado em Sinop e o escritório comercial de Querência. Produtores que mantinham contratos de compra e entrega de soja para a safra 2025/2026 relataram que, desde então, não conseguem contato com representantes da companhia. Ligações e mensagens aos executivos passaram a não ser atendidas.

Armazém recém-inaugurado fica sem uso

O caso de Porto dos Gaúchos chama ainda mais atenção. O armazém da Aliança Agrícola foi inaugurado em maio de 2024, com capacidade estática para 66 mil toneladas de grãos. A estrutura era considerada estratégica para o Corredor Norte, rota logística fundamental para reduzir custos no escoamento da produção mato-grossense.

Relatórios internos divulgados no ano passado apontavam perspectivas positivas, com menções a “forte sinergia” e planos de expansão. O fechamento repentino, portanto, levanta questionamentos sobre os reais motivos da decisão e transforma o investimento recente em um ativo ocioso.

Para os produtores locais, a saída de uma trading desse porte reduz a concorrência na compra de grãos e pode pressionar ainda mais as margens de lucro em uma safra já marcada por desafios. Além disso, há apreensão quanto ao destino da soja já entregue ou contratada para a safra 2025/2026.

Silêncio da direção e especulações

Por trás da decisão está o empresário Alexander Lutsenko, de 63 anos, bilionário de origem bielorrussa e cidadania russa, fundador e controlador do grupo Sodrugestvo. Ex-oficial do Exército soviético, Lutsenko construiu um império global no agronegócio, avaliado em cerca de US$ 2,5 bilhões.

Apesar da dimensão do impacto, nem Lutsenko nem o executivo responsável pela operação brasileira, Danilo Dalia Jorge, se manifestaram publicamente para explicar os motivos do encerramento. O silêncio da diretoria é alvo de críticas e fere princípios básicos de transparência e responsabilidade corporativa, sobretudo diante do número de produtores, fornecedores e trabalhadores afetados.

Nos bastidores do mercado, crescem especulações sobre fatores geopolíticos. O ambiente internacional para empresas russas segue instável, mas até o momento não há confirmação oficial de que sanções econômicas tenham motivado a retirada do grupo do Brasil.

Números não indicavam crise

Do ponto de vista financeiro, a Aliança Agrícola do Cerrado não apresentava sinais evidentes de colapso. Na safra 2024/2025, a empresa registrou receita líquida de R$ 4,6 bilhões — uma queda de 7% em relação ao ciclo anterior, mas ainda com geração de caixa positiva. O EBITDA alcançou R$ 152 milhões, com margens consideradas compatíveis com o setor.

Credores afirmam que o endividamento estava sob controle e que a companhia havia, inclusive, emitido recentemente Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs). Diante desses dados, a desmobilização total das operações no Brasil soa contraditória e reforça a tese de motivações externas à realidade econômica local.

Impactos regionais e insegurança no setor

O fechamento das unidades deixou um rastro de prejuízos sociais e econômicos. Em Bataguassu (MS), onde o grupo também atuava, a prefeitura precisou organizar um feirão emergencial de empregos. Em Mato Grosso, a saída da empresa rompe elos importantes da cadeia produtiva em municípios estratégicos do agronegócio.

A quebra de confiança preocupa o setor. O agronegócio brasileiro opera fortemente baseado em contratos e credibilidade. Quando uma das 20 maiores tradings do país encerra atividades de forma abrupta, o alerta se estende a todo o mercado.

Agora, produtores, fornecedores e credores avaliam recorrer à Justiça para garantir seus direitos. Embora haja promessa de pagamento das rescisões trabalhistas, a ausência física e institucional da direção no país aumenta a apreensão. O desaparecimento da gestão não elimina as obrigações legais deixadas para trás nas cidades mato-grossenses.

NORTÃO MT

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