Reconhecido pelo MAPA em 2025, o projeto “Gente que Produz e Preserva” conta hoje com a participação de 53 fazendas distribuídas na vastidão de 290 mil hectares do médio-norte e norte de Mato Grosso
Paixão e agricultura podem ser semeadas no mesmo campo. E render mais do que safras recordes. É o que contam os produtores rurais sorrisenses Márcia Becker Paiva e Darcy Ferrarin. Mais do que a profissão em comum, os dois não escondem o entusiasmo por plantar e preservar. Ambos são defensores da resiliência ecológica que aposta na capacidade do ecossistema em se recuperar. No caso dos produtores, é essa capacidade que reflete a saúde do solo e garante a continuidade da própria profissão que escolheram. Conceito bem definido pelo programa “Gente que Produz e Preserva” implantado pelo Clube Amigos da Terra (CAT) de que ambos fazem parte.
Criado na roça, em uma pequena propriedade de subsistência em Santa Bárbara do Sul, no Rio Grande do Sul, Darcy conhece a força da terra – e sua capacidade de regeneração. Foi ainda no Sul que viveu de perto e desenvolveu a consciência ambiental que hoje defende pelos quatro cantos do mundo. Darcy conta que ainda jovem, em Cruz Alta, conheceu o “Clube da Minhoca”, uma organização que surgiu para cuidar da terra agricultável que sofria com o processo erosivo.

Quando adquiriu a área da fazenda Santa Maria da Amazônia e escolheu Sorriso, no Mato Grosso, para chamar de lar em 1998, o produtor sabia que assim como no Sul teria um longo caminho pela frente para recuperar uma área ambientalmente degradada.
“Quando comprei a Santa Maria adquiri uma área em que se tinha por hábito levar o boi até a água, isso causa uma degradação de nascentes, por exemplo. Olhei para os lados e vi que na lavoura não se tinha a preocupação em cuidar da terra, o modelo agricultável gerava um grande impacto ambiental”, detalha Ferrarin.
Logo, o produtor constatou que as áreas recém-abertas do Mato Grosso sofreriam o mesmo processo erosivo que havia testemunhado no Sul e imediatamente começou um trabalho de consciência ambiental. De vizinho em vizinho, prosa em prosa, Darcy foi relatando a necessidade de cuidar da terra. Sabia que a primeira mudança seria na forma de pensamento; a tecnológica, necessária também já que o maquinário empregado na época teria que ser trocado, viria depois.
Foi aí que surgiu a semente de um projeto que mudaria os rumos do médio-norte e do norte de Mato Grosso: conhecedor do desgaste que a terra sofria, Ferrarin passou a semear ideias dentre os conhecidos como a do plantio direto. No plantio direto o solo não é arado ou gradeado: a semeadura é feita abrindo-se apenas um pequeno sulco na terra em que caiba a semente e o adubo; ainda há a cobertura permanente com a palhada do cultivo anterior protegendo a terra e a rotação de culturas. “As máquinas aqui não eram apropriadas para esse sistema, então a primeira dificuldade foi convencer o produtor que teríamos muita coisa para mudar”, conta sobre o passado.
Mas ele queria fazer diferente e mostrar que era possível: iniciou comprando o maquinário adequado e incentivando os vizinhos. Recomendou palestrantes. E o esforço do fim dos anos 90 gerou frutos: em 2002 junto com outros produtores que defendiam a necessidade de preservar e cuidar da terra, Ferrarin fundou e foi o primeiro presidente do CAT.
O produtor conta que a adesão ao plantio direto e a troca de maquinário foram fundamentais para acabar com erosão que levava “a terra para dentro do leito do rio e ali perdia-se nutrientes essenciais, na prática, ia tudo rio abaixo”. O medo inicial dos produtores foi substituído pela certeza de que daria certo: hoje a região é conhecida pelas três safras produzidas durante o ano.
A soja continua sendo o principal motor do agro: a primeira safra é voltada ao grão que, inclusive bateu recorde histórico somando o plantio de todo o Estado na temporada 2025/2026 com mais de 51,6 milhões de toneladas produzidas. Colhida a soja, entre os meses de janeiro e marco entra em cena o milho Já no vazio sanitário da soja, de 8 de junho a 6 de setembro, entra em cena o milho, cuja colheita é realizada entre junho e agosto. Além do milho, em muitas propriedades o algodão também entra nesse segunda janela de cultivo. Na terceira safra, a safra de inverno, o solo é semeado com grãos como feijão, sorgo, gergelim ou ainda um novo ciclo de milho.
“Em média hoje, cuidando da terra da forma que ela merece ser cuidada, mantendo um solo vivo e fértil consegue-se ultrapassar a marca de 60 sacas de soja por hectare; já o milho passa de 120 sacas ao hectare”, comemora Ferrarin. “Para quem temeu mudar a forma de cultivo, esses números desenham uma realidade com safras ainda maiores”, pontua.
Para o agricultor, o marco da mudança ocorreu em 2003 quando entre 4 e 6 de junho daquele ano, Sorriso sediou o 7.º Encontro Nacional de Plantio Direto no Cerrado. “Foram três dias de muita informação; recebemos mais de 2,3 mil participantes por dia e quem esteve ali viu de perto como a preservação poderia mudar todo o contexto. Ali nasceu um outro olhar sobre como cultivar”, relembra. O evento foi organizado pelo CAT e contou com a presença de produtores de todo o país.
Com o CAT, nasce o “Gente que Produz e Preserva”
O encontro, no olhar do agricultor, foi o passo essencial para que 10 anos depois, em 2013, o Clube lançasse um dos projetos que mais orgulha o produtor o “Gente que Produz e Preserva” que, inicialmente reuniu nove propriedades rurais. Foi nesse espaço que o “Gente que Produz e Preserva” floresceu e firmou raízes como um marco na agricultura sustentável.
Na prática, o programa avalia 108 itens que possibilitam à propriedade participante a certificação para adesão ao selo da Round Table on Responsible Soy (RTRS), a Mesa Redonda da Soja Responsável, referência global em sustentabilidade na produção agrícola. Os 108 critérios abrem o leque para o cumprimento à risca da legislação ambiental, proteção de áreas sensíveis, boas condições de trabalho, uso responsável de insumos e total rastreabilidade produtiva, os agricultores recebem uma compensação, um bônus pela produtividade sustentável.
Ferrarin defende que a soma dos 108 indicadores criou um ecossistema que se regenerou. “Sorriso tem 64 mil hectares de APPs (área de preservação permanente), quando iniciamos o projeto identificamos 4,2 mil hectares depredados, hoje, temos a felicidade em constatar que já são mais de 2 mil hectares recuperados”, frisa. A recuperação veio como resultado de cada uma das boas práticas postas em ação.
O produtor faz questão de frisar que tudo é analisado com muito cuidado. “O maquinário, por exemplo, precisa estar sempre em boas condições, limpo, com planilhas relatando o consumo de combustível de cada máquina e as revisões realizadas. Uma única gota de óleo que caía no solo faz um estrago que você não imagina, então esse é um processo cuidadoso de limpeza e manutenção”, alerta. “Um litro de óleo pode contaminar centenas de litros de água, uma nascente inteira e colocar a fauna e a flora local em perigo”, reforça.

Na Santa Maria esse processo é seguido à risca: nos 5,3 mil hectares que integram a área, existem 28 nascentes recuperadas e preservadas. Ferrarin mudou o hábito do gado beber com a instalação de bebedouros no pasto e iniciou o projeto de recuperação das nascentes com o plantio de espécies nativas. “E nesse quesito você também tem que observar e respeitar a natureza: há árvore que gosta da encosta da vertente, aquela que fica no meio-termo e a que prefere o cerrado, cada uma tem seu lugar”, ensina.

Na vastidão da fazenda com vários quilômetros de fundo de rio, animais silvestres como emas, antas, porcos do mato, capivaras, cobras e até onças, circulavam livremente. “Aqui todos convivemos em paz”. Diz. A área que até 1998 dedicava-se à pecuária, hoje investe na diversificação com o plantio de comodities como soja e milho e há espaços reservados ao algodão, arroz – a cultura inicial de Sorriso, lembra o agricultor -, feijão e a produção de gado bovino.
“Busco diversificar, ser autossuficiente dentro da Santa Maria; vejo a fazenda como uma extensão de muito trabalho, pesquisa e sonhos. Hoje a Santa Maria é um laboratório natural na prática”, diz Ferrarin.

Mais de 290 mil hectares certificados
A agrônoma Júlia Ferreira Viotto, gestora de certificação do CAT, acompanha esse processo desde o início. É ela a responsável por orientar, visitar e encaminhar os dados dos produtores para a certificação. Júlia, assim como Ferrarin, vive a agricultura nas veias. Vinda do Sul de Minas Gerais, trocou as roças de café pelas de soja em 2010. “Comecei a levantar os dados para a certificação ainda em 2010, acessando produtores e falando sobre o plantio direto. Foi um trabalho de boca a boca que logo revelou sua magnitude”, conta.

Hoje, Júlia acompanha de perto a lida em 53 propriedades que aderiram à certificação. Desde 2013, quando o programa iniciou com nove participantes, outras 44 aderiram ao programa.
Atualmente são mais de 290 mil hectares certificados cuja safra 2024/2025 somou 686 mil toneladas de soja produzidas em 15 municípios das regiões médio-norte e norte de Mato Grosso.
Júlia, em parceria com a coordenadora do CAT, Cristina Delicato, é responsável por monitorar a plataforma de créditos. Cristina fica à frente das negociações e todo o trâmite é acompanhado por ambas. Nesse ano, a negociação se deu principalmente com a Holanda e a Alemanha. Nos últimos dez anos, o valor acumulado dos bônus pagos aos produtores mato-grossenses totalizou 7,5 milhões de dólares.
“Com o selo RTRS a bonificação vem diretamente do mercado. O produtor certificado acessa compradores que valorizam soja responsável e pagam um prêmio adicional pela produção certificada e esse valor que recebem a mais, esse bônus, é automaticamente empregado em novas melhorias e ampliações das fazendas. Tudo o que sai da lavoura, volta para a lavoura”, constata a agrônoma.
Além de criar e incentivar o programa, o CAT conduz todo processo da certificação internacional da soja responsável, assumindo a gestão do grupo de produtores, a consultoria e assessoria técnica, organização documental, e, por fim, realizando o trabalho de mercado para a venda dos créditos. Todo o trabalho do CAT é verificado por auditoria externa.
“Nossa equipe realizada um papel fundamental na certificação e na manutenção dos padrões da RTRS”, frisa a atual presidente do CAT e produtora rural, Márcia Becker Paiva. “Nossa gente é comprometida e apaixonada por esse programa”, diz.
Hoje, o grupo de produtores rurais em que o CAT Sorriso atua como gestor representa 9% do total de créditos negociados pela plataforma RTRS no mundo. Um número bem representativo. “Nunca imaginamos esse impacto tão positivo”, relata a presidente.

Márcia, que também nasceu e foi criada vivendo o dia a dia de uma pequena propriedade rural no extremo oeste de Santa Catarina, sabe que os números vão muito além de porcentagens. A Fazenda Santana, da família da produtora, é uma das pioneiras do projeto. Nos 1.469 hectares da Santana, há muita vida traduzida em solo saudável e bem cuidado. Sogra de Márcia, Anadir Regina Graça Paiva, a Dudy Paiva, que faleceu em 2024, foi uma das pioneiras do agronegócio na região de Sorriso. Dudy passou o legado para a nora que hoje se encarrega de manter a Santana ao lado do esposo Juliano como uma das vitrines do agronegócio sustentável. Vitrine mesmo, dessas que as pessoas visitam como inspiração e que tornam a visitar sempre com olhos deslumbrados. A Santana chega a receber mais de 20 mil alunos todos os anos que conferem de perto cada cantinho do espaço. Os dados da safra 2024/2025 apontam que com o modelo sustentável a Santana produziu 67,5 sacas de soja por hectare.

Mas chegar a esse patamar não foi fácil. “Creio que contabilizar, registrar cada item no papel foi o ponto mais difícil quando foi feita à adesão ao Gente que Produz e Preserva. O agricultor sabe e gosta muito de plantar e colher, faz tudo muito bem feito, cuidar da terra e do maquinário é um processo apaixonante que requer ação imediata, por isso o registro documental acabava ficando para quando desse tempo. O programa mudou essa concepção”, frisa.
Com os dados levantados por Júlia e encaminhados à RTRS, periodicamente são realizadas visitas de auditores independentes às propriedades. O local é escolhido por sorteio. “Qualquer uma das 53 propriedades integrantes pode ser visitada”, detalha. “E todos temos muito orgulho em receber os certificadores”, acrescenta. A Santana, conta Márcia, bem como a Santa Leopoldina, tocada pela família de uma irmã da produtora, já foram alvo das visitas internacionais em duas ocasiões distintas.
Márcia conta que a Santana investe periodicamente em cursos e formações voltadas aos colaboradores. Cantina, alojamento, documentação, tudo passa pelo pente fino do olhar da agricultora – e da equipe certificadora. “O maquinário, os insumos que usamos passam por atualizações constantes, então, da mesma forma nossos colaboradores precisam ser atualizados. Outra questão, a do alojamento e da cantina são levadas muito a sério: quem trabalha no pesado precisa ter um local limpo e agradável para descansar e, claro, estar bem alimentado. De modo que os 108 indicadores da RSTS estão inclusos no dia a dia das propriedades de uma forma natural”, avalia.
Os indicadores incluem ainda o cuidado com a comunidade onde as fazendas estão inseridas. Por isso, ações de apoio à pequenos produtores rurais integram o leque de atividades grupo com apoio em cursos e dias de campo. “Costumamos dizer que as fazendas que integram o programa são todas vitrines vivas, recebemos muitas visitas nessas propriedades, inclusive com dias de campo abertos à toda a população”, destaca a agricultora. São ações que fortalecem a cadeia produtiva tanto em larga escala como da agricultura familiar. “Em Sorriso, especificamente, temos projetos em conjunto com o Assentamento Jonas Pinheiro na realização das palestras e dias de campo”.
Para Márcia, as ações simples feitas no campo alinham-se às necessidades do mercado consumidor de pequenas e grandes áreas urbanas.

É da presidência de Márcia um grande marco conquistado pelo Gente que Produz e Preserva: em 15 de outubro de 2025 o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) reconheceu oficialmente o programa como um dos promotores de Boas Práticas Agrícolas (BPA) na etapa primária da cadeia produtiva agrícola. “Recebemos esse reconhecimento com muita alegria, como resposta de que estamos no caminho certo, de que produzir e preservar são lados da mesma moeda”, comemora.
Os resultados alcançados, o reconhecimento internacional e do Mapa, são provas de que “há muita gente preservando, cuidando e fortalecendo a agricultura regenerativa no Mato Grosso e quem se alimenta do que vem do campo tem a confiança de saber como foi produzido e de onde vem esse alimento”, destaca.
“A certificação RSTS garante ao consumidor final, aquela pessoa que coloca esse produto na mesa que ele está consumindo um produto ambientalmente correto, produzido com cuidado e respeito ao ecossistema em que vivemos”, salienta Márcia.
E para o futuro a agricultora acrescenta “o sonho é que essa semente se multiplique e prolifera por todo o país”. Essa postura, defende, se reflete em um solo vivo, saudável, regenerado em que é possível seguir plantando e preservando.
Créditos:
Texto: Claudia Lazarotto
Fotos: Ney Douglas










